Debater Lisboa
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Colina de Santana
Fecho de hospitais faz temer falhas nos cuidados de proximidade
29-01-2014 Marisa Soares , Público

Médicos e deputados municipais apresentaram dúvidas sobre a forma como está a ser conduzido o processo de encerramento dos cinco hospitais do centro de Lisboa. Destino dos edifícios é outra incógnita. O segundo debate realizado na Assembleia Municipal de Lisboa sobre o futuro da Colina de Santana prometia discussão acesa, e cumpriu.

Em cima da mesa estava o impacto do fecho dos hospitais ali instalados no acesso da população a cuidados de saúde e logo houve quem pedisse que se evitassem os "discursos apaixonados". Mas quase todos os que intervieram, entre médicos e deputados municipais, pediram mais informação sobre o processo e até a sua suspensão. A primeira preocupação, partilhada pelos vários médicos presentes, prende-se com a necessidade de garantir, encerrando os hospitais na colina, que as populações das freguesias do centro de Lisboa não vão perder cuidados de proximidade naquela zona.

"É uma população envelhecida, em que mais de 50% da população é idosa, com 111 idosos para cada 100 jovens, com grande prevalência de doenças crónicas, cancerosas", sublinhou Pilar Vicente, médica em São José e dirigente da Federação Nacional dos Médicos, para quem importa também preservar a "cultura de relacionamento com a população e de espírito de serviço público" que estes hospitais cultivaram ao longo dos anos. E, sobretudo, garantir que nenhum dos hospitais encerra sem que esteja concluída a construção do Hospital Oriental.

Na sessão, que se prolongou durante três horas e à qual assistiram quase 300 pessoas, foram-se esgrimindo argumentos, mais contra do que a favor do encerramento dos três hospitais que ainda se mantêm abertos naquela zona central da cidade - São José, Santa Marta e Capuchos. Jorge Penedo, coordenador do grupo técnico criado pelo Governo para a reforma hospitalar, centrou o discurso nos problemas estruturais dos hospitais, que implicam rendas anuais de 6 milhões de euros. Sublinhando que nenhum daqueles edifícios foram feitos para serem hospitais, destacou os "custos elevados" de manutenção - cerca de 3 milhões em 2013 -, que "não se traduzem em melhores cuidados de saúde". Mais tarde, acabaria por dar exemplos: "Há doentes transferidos de uma unidade para outra por maqueiros com chapéus-de-chuva. Isto é qualidade?"

O novo Hospital Oriental de Lisboa, previsto para 2017 na zona de Chelas, freguesia de Marvila, "é essencial para a modernização dos cuidados de saúde", reforçou Penedo, salientando as características de "hospital de fim de linha", com "todas as especialidades médicas hospitalares". E confrontado por vários elementos da plateia - incluindo pelo ex-vereador da Mobilidade, agora deputado municipal, Fernando Nunes da Silva - sobre a falta de acessibilidades da zona onde será instalado o hospital, quer em transporte individual quer colectivo, Penedo respondeu: "Ninguém está à espera que enquanto não estiver lá o hospital sejam feitas as acessibilidades."

No público, foram várias as intervenções a lembrar que noutras capitais europeias a política é manter os hospitais antigos a funcionar nos centros históricos. "Em Londres, o filho dos príncipes nasceu há pouco tempo num hospital do século XVI", apontou Jaime Mendes, presidente da secção regional sul da Ordem dos Médicos. Este responsável, que integrou o painel de oradores, lamentou que a entidade que representa nunca tenha sido chamada para discutir a reorganização hospitalar. Lamentou também a ausência de uma estratégia para a saúde em Lisboa, crítica repetida por Constantino Sakellarides, ex-director da Escola Nacional de Saúde Pública.

"Antes de deitarem a primeira pedra em Marvila falem com as populações. E vejam se o Rock in Rio continua lá, pois deve ser uma alegria para os politraumatizados ouvir aquela música", ironizou Jaime Mendes. Se todos concordam que os edifícios, antigos conventos construídos nos séc. XVI e XVII, têm um grande valor patrimonial, há opiniões diversas sobre o destino a dar aos equipamentos. A mais discutida foi a criação de unidades de cuidados continuados - defendida pela própria câmara num documento estratégico para a Colina de Santana. Jorge Penedo contrapôs: "O Hospital do Desterro desactivado teve um concurso lançado para cuidados continuados, que ficou vazio." A Estamo, proprietária dos edifícios, apresentou já pedidos de informação prévia sobre a viabilidade de um conjunto de loteamentos.

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