Debater Lisboa
Projectos para a colina de Santana são "desastrosos" e um "atentado à cultura", diz historiador
11-02-2014 Bruno Simões, Jornal de Negócios

O último debate sobre a colina de Santana teve lugar esta tarde na Assembleia Municipal de Lisboa. Um dos membros do painel, o historiador e economista Vítor Freire, considera que “devido ao elevado índice de construção nova e em altura, e às reutilizações previstas, o impacto das propostas sobre a memória e identidade histórica da colina de Santana seria desastroso, e um atentado à cultura”.

No entender deste historiador, os projectos existentes “devem ser retirados ou reprovados”, e “não somente suspensos”, e “só após a inauguração do Hospital Oriental é que devem ser vendidos”. “Com o eventual encerramento dos hospitais, a oportunidade não é para mais betão, é para mais cultura e arte e para os moradores da zona”, considera Vítor Freire. A abertura do novo hospital de Lisboa está prevista para 2018.

Outro dos membros do painel, o arquitecto José Aguiar, considera que a construção de “edifícios altamente icónicos” é errada, porque “esquecem a paisagem urbana histórica”. O arquitecto diz que o estudo elaborado para a zona é “muito interessante”, mas discorda do “reforço da habitação proposta”, uma vez que já há muita habitação degradada naquela área. “Obriga-se a reabilitar, mas quando se chega ao bife, aos hospitais, criam-se novos edifícios”, ironizou.

José Aguiar disse que pediu aos seus alunos para, durante quatro anos, pensarem numa intervenção alternativa para a zona. E concluiu que é possível uma proposta “alternativa em que salvássemos edifícios todos, com os mesmos metros quadrados de construção”. “Consegue-se a mesma edificabilidade mantendo os edifícios existentes”, acrescentou ainda.

Entre as propostas alternativas para a zona, Aguiar a reconversão de “alguns edifícios para hostels”, um “spa no Miguel Bombarda”, ou a conversão da cozinha de um dos hospitais num restaurante. Além disso, também “importa prever usos para os espaços desactivados”. Os “alunos provaram que os espaços passos desactivados do Bombarda deviam ser já apropriados pela cidade, com enorme interesse urbano. Um eco-bairro histórico parece-me uma excelente ideia”, acrescentou.

José Aguiar disse ainda ter “algumas dúvidas sobre a legalidade urbanística de algumas operações”.

António Rendas quer intervenção integrada

O reitor da Universidade Nova de Lisboa (UNL), António Rendas, foi também um dos oradores. Recordou o seu passado em comum com os hospitais da colina, e garantiu que a UNL “vai ajudar a transformar a colina de Santana na colina do conhecimento”. Rendas disse ter dúvidas de que haja “alguém satisfeito com a degradação da colina de Santana”, defendendo que algo se faça.

Mas para isso, no entender do reitor, “é fundamental ouvir os responsáveis hospitalares”, porque “a medicina praticada nos hospitais civis de Lisboa é de enorme qualidade e não pode parar”. Mas também é preciso “comprometer o Governo com um cronograma inabalável, sem o qual este exercício não tem fundamento”. “Temos de olhar para isto como projecto em rede que envolva a saúde, a inovação e a cultura”, defendeu.

A historiadora Raquel Henriques da Silva defendeu a construção de um museu da medicina no hospital São José. “É impensável que na colina de Santana a memória destes hospitais não permaneça, que as colecções não sejam resgatadas, estudadas e integradas, e que este museu da saúde, que já existe organicamente, viva como projecto à parte do projecto para a colina de Santana”, assinalou.

Os projectos de construção para a zona, que incluem a demolição de alguns edifícios dos quatro hospitais da colina de Santana (Capuchos, São José, Santa Marta e Miguel Bombarda), que pertencem à empresa pública Estamo, prevêem a construção de diversos edifícios residenciais, hotéis e comércio para a zona. A Câmara de Lisboa suspendeu-os durante estes debates e já admite discutir um novo plano de acção na zona.

O debate desta terça-feira foi o último de carácter temático. O próximo, daqui a exactamente um mês, vai debruçar-se sobre as conclusões e propostas a submeter à Assembleia Municipal de Lisboa.

Este sítio é plural em matéria de acordo ortográfico