Debater Lisboa
O Miradouro do Torel é um dos pontos privilegiados para ver a capital     Fotografia © Natacha Cardoso / Global Imagens
O Miradouro do Torel é um dos pontos privilegiados para ver a capital Fotografia © Natacha Cardoso / Global Imagens
Colina de Santana
"Indispensável" estudar impacte de construção nova
11-02-2014 Inês Banha, DN

Projectos de reconversão dos hospitais prevêem, nalguns casos, prédios com seis pisos. "Qualidade cénica" do território é definidora da identidade de Lisboa

A "qualidade cénica" da paisagem da Colina de Santana é considerada "um valor definidor da identidade da cidade de Lisboa" e, como tal, deverá ser preservada "através de medidas para a protecção das vistas panorâmicas". Para tal, é "indispensável a elaboração de estudos de impacte visual" das propostas de reconversão dos hospitais ali existentes e que, no futuro, deverão dar lugar ou a hotéis ou a prédios de habitação. O alerta consta do Documento Estratégico de Intervenção naquele território que, a partir das 18h00 de hoje, continua a ser debatido na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) com transmissão em directo em DN.pt (ou neste site, AQUI)

Pode ser a única das sete colinas da capital que não confina com o rio Tejo, mas nem por isso deixa de ter um papel fundamental na definição da identidade lisboeta. O segredo estará no seu "relevo diversificado e acidentado" destacado pelos "dois importantes vales" (avenidas Almirante Reis e da Liberdade) que a delimitam - elementos que, combinados, a tornam visível de "diversos pontos notáveis da cidade" ao mesmo tempo que é, por si, local privilegiado para "desfrutar de importantes panorâmicas" sobre Lisboa. A prová-lo o facto de poder ser admirada de lugares como o Elevador de Santa Justa, o Miradouro de São Pedro de Alcântara e o Castelo de São Jorge e de dispor de três localizações onde o "ângulo de visão" varia entre os 120º e os 200º - o Miradouro do Torel, a Rua Joaquina e o Hospital de São José.

Os técnicos camarários autores do Documento Estratégico de Intervenção na Colina de Santana - baseado no Projecto Urbano para aquele território coordenado pela arquitecta Inês Lobo - avisam, porém, que a "qualidade cénica da paisagem" é um valor "cada vez mais raro" e recomendam, por isso, que "sejam tomadas medidas para a protecção das vistas panorâmicas, nomeadamente nas encostas em direcção aos vales".

Em causa estão, por exemplo, as novas construções previstas para as unidades de saúde Miguel Bombarda, São José ou Santo António dos Capuchos, algumas das quais com seis pisos - o suficiente para que se considere "indispensável a elaboração de estudos de impacte visual que fundamentem as propostas". A apreciação dos pedidos de informação prévia (PIP) que preconizam estas intervenções está actualmente suspensa no município, que já garantiu que só vai tomar uma decisão após haver um relatório com as conclusões da discussão a decorrer na AML.

Hoje, a sessão destina-se a debater o impacte das propostas "na memória e identidade histórica" de um território que desde a cidade medieval que não é alvo de planeamento. Nessa altura, era, "na periferia imediata do que seria o núcleo urbano denso" de Lisboa, "lugar para agricultura". Seria, de resto, ainda "em convivência" com essa actividade que, no século XIV, seria ali instalada a Gafaria de São Lázaro, destinada ao tratamento de leprosos e primeira ocupação hospitalar da Colina. Já nos séculos XVIII e, sobretudo, XIX receberia os restantes hospitais que resistiram até ao século XXI. À data, ocuparam conventos edificados no século XVI por ordens religiosas, vazios depois de ter sido ordenada a extinção destas comunidades.

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