Debater Lisboa
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Colina de Santana
Cidadãos temem que nova face da Colina seja para "ricos"
3ª sessão de debate
05-02-2014 INÊS BANHA, DN

Construção de prédios de habitação nos recintos dos hospitais marcaram terceiro de quatro debates temáticos. Projectos estão suspensos, garantiu vereador

A maioria dos intervenientes no debate de ontem sobre o futuro da Colina de Santana, em Lisboa, teme que as acções de reconversão previstas para os hospitais Miguel Bombarda, de São José, de Santa Marta e de Santo António dos Capuchos impliquem a "substituição" da população que ali reside actualmente por moradores com maior capacidade financeira. Para já, têm a garantia do vereador do Urbanismo na câmara municipal (CML), Manuel Salgado, de que os Pedidos de Informação Prévia (PIP) relativos àquelas intervenções estão suspensos e que só será tomada uma decisão quando houver um documento global sobre os projectos.

Gentrificação. A palavra - que se refere ao fenómeno em que a reabilitação física de uma área é acompanhada de uma transformação social que implica o afastamento da zona das classes mais baixas - foi utilizada, na sua versão inglesa, pela geógrafa Teresa Barata Salgueiro ainda durante a fase de intervenções do painel de oradores, mas acabaria por dar o mote para uma discussão destinada a analisar o impacte "urbanístico, social e habitacional das propostas" na Colina de Santana. Em causa, está o facto de estar prevista a construção nos terrenos dos hospitais ali existentes - três deles ainda em funcionamento - de cerca de 700 fogos.

No Documento Estratégico de Intervenção no território compreendido entre as avenidas Almirante Reis e da Liberdade, da autoria da autarquia mas baseado no Projecto Urbano coordenado pela arquitecta Inês Lobo, não se fala em "condomínios privados", mas, para os participantes de ontem, é isso que está em causa. "O conceito de espaço público é substituído pelo de fruição pública", lembrou uma munícipe, enquanto um outro salientou que as cercas das unidades de saúde se vão manter. "Que se deite abaixo a que não está classificada", sugeriu.

Certo é que, numa área em que 24% do total dos alojamentos estão vagos e 29% dos edifícios estão em mau estado de conservação e 2,5% em muito mau, a aposta deverá passar também pela reabilitação do edificado. "A reocupação dos fogos vai ter quatro vezes mais população do que aquela que vai residir nas novas construções", contrapôs, durante o período destinado ao público, Paulo Pais, director do Departamento de Planeamento e Reabilitação Urbana da CML.

A modalidade foi também aproveitada por Manuel Salgado para garantir, numa curta intervenção, que a apreciação dos PIP que originaram a abertura aos cidadãos do debate "estão suspensos". O autarca afirmou ainda estar em desacordo com a crítica proferida várias vezes ao longo das quase três horas de debate - incluindo por Helena Roseta, actual presidente do parlamento da cidade e vereadora da Habitação no mandato anterior - de que o processo fora mal conduzido, com a proposta global a surgir cerca de dois anos depois da apresentação dos projectos para os quatro hospitais, três dos quais ainda a funcionar. A falta de um projecto global para a Colina de Santana foi, de resto, outro dos assuntos mais focados na sessão de ontem. A discussão continua na terça-feira.

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