Debater Lisboa
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Colina de Santana
Arquiteta alerta para "deslizamento de terras"
05-02-2014 Inês Banha, DN

Margarida Saavedra defende que instabilidade da Colina de Santana é visível nos edifícios que ali existem. Muitos apresentam rachas, inclinação e cantarias partidas

A fachada do 128 da Calçada de Santana, em Lisboa, está pintada de fresco, mas nem por isso deixam de ser visíveis várias rachas verticais quase que a "gritar" a quem passa que algo não está bem no edifício recentemente reabilitado. A mensagem poderá passar despercebida a muitos leigos mas não a Margarida Saavedra, arquitecta e deputada municipal: ali, em pleno coração da capital, não está em causa uma intervenção sem qualidade, mas sim um problemas de sustentação extensível à maioria do edificado da Colina de Santana. Uma situação que, defende a antiga vereadora social-democrata, torna indispensável que antes de se aprovar qualquer grande projecto para aquele território seja executado um plano de salvaguarda.

O passeio começa na Calçada do Garcia, no sopé da colina delimitada pelas avenidas Almirante Reis e da Liberdade e relativamente longe dos hospitais que poderão no futuro ser palco de trabalhos de demolição, reabilitação e construção de novos edifícios - empreitadas de grande envergadura que poderão pôr em risco uma colina propícia a sofrer "deslizamento de terras". A provar que tal está já em curso, os sinais presentes em dezenas e dezenas de prédios ali localizados.

Algumas dezenas de passos bastam para que numa visita guiada para jornalistas realizada ontem de manhã Margarida Saavedra aponte para um edifício inclinado, com "uma clara barriga" e "decorado" com uma racha vertical que provocou já quebras no friso da fachada e na cantaria das janelas. "É como ter uma cómoda com um pé partido. Quando um de sustentação do prédio abate, toda a estrutura é arrastada para o ponto fraco", compara a arquitecta.

Na base do problema, explica, está o facto de a maioria dos imóveis da Colina de Santana ter fundações que variam entre os 80 centímetros e os 1,5 metros, estando por isso assentes em terra e não em pedra. Os hospitais de São José, de Santa Marta, de Santo António dos Capuchos e Miguel Bombarda são, por se tratar de antigos conventos edificados nas melhores zonas, algumas das excepções, mas não são as únicas. Exemplo disso é, segundo a deputada municipal do PSD, o imóvel localizado no cruzamento da Rua do Arco da Graça com a Calçada Nova do Colégio, que acaba por, actualmente, suportar o peso dos prédios contíguos.

A qualidade de construção está, ainda assim, longe de garantir a segurança dos edifícios, numa tese demonstrada pelo acentuado estado de degradação do 136 da Calçada de Santana. O prédio - "melhor do que qualquer um dos outros" que ali existem - deverá ser demolido em breve por estar em risco de ruir. De todos os identificados ontem por Margarida Saavedra, é o único que está abandonado. Os restantes estão habitados.

A ex-vereadora do urbanismo ressalva, porém, que por agora sé apenas um "alerta" para uma situação que não é "de risco" - algo que só se manterá se a autarquia "elaborar e executar um plano de salvaguarda" que "bastaria" incidir no espaço público. Seria então necessário estudar as consequências na estabilidade da colina das operações previstas para os hospitais. A deputada municipal não percebe como tal ainda não foi feito.

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